AGIRLEI

Confesso: eu achava que a história do tal prefeito da bicicleta era mais uma dessas lendas de cidade pequena. Diziam que o sujeito era muito simples, que não tinha gabinete de mármore nem comitiva de puxa-sacos, e que aparecia pedalando pela cidade como se o poder fosse coisa corriqueira.

 

Pois neste sábado, por volta do meio-dia, em plena BR-367, tive o prazer de descobrir que era tudo verdade. Lá estava Girlei Lage, prefeito de Santa Cruz Cabrália, vestido de palhaço, pedalando sua bicicleta cargueira para homenagear o Dia das Crianças. Sim, um prefeito de verdade, suando no asfalto, sem seguranças, sem motorista, sem firula.

 

Parei o carro só pra confirmar que a alucinação era real.

“Então o senhor é o famoso prefeito da bicicleta?”, perguntei.
Ele sorriu e respondeu:
“Não. Eu “não sou” o prefeito. Eu apenas “estou” prefeito.”

Pronto. Em uma frase, o homem desmontou séculos de arrogância política brasileira.

 

SEM SW 4

 

Disse a ele, meio brincando:
“Mas com dez meses de mandato, pensei que já estivesse de SW4, o carro preferido de 100 em cada 100 prefeitos do país.”
Ele rebateu, tranquilo:
“Não, eu ainda prefiro a bicicleta. E desta aqui não me separo.”

Foi o bastante pra entender: Girlei é uma heresia viva no templo da política brasileira.

 

CARGO EMPRESTADO

 

Enquanto os prefeitos “normais” investem pequenas fortunas pra serem eleitos e, depois, passam o resto da vida tentando não largar o osso, Girlei age como quem emprestou o cargo por tempo determinado.

 

Em vez de trono, tem um selim. Em vez de gabinete climatizado, tem o vento na cara. E, veja só, o mundo não acabou. A cidade continua funcionando — talvez até melhor.

 

Nos tempos de prefeitos faraós, que acham que governar é posar pra foto e desfilar em carro oficial, ver um gestor pedalando parece coisa de outro planeta. E, no Brasil, isso é quase subversivo.

 

NOVOS TEMPOS

 

Não que Girlei seja perfeito — ele mesmo provavelmente diria que não é. Mas o que o diferencia é justamente o que falta na política nacional: autenticidade. Ele não faz pose, não ensaia discurso, não inventa personagem. O homem é o que é — e, pasme, isso tem dado certo.

 

Santa Cruz Cabrália começa a ver resultados práticos: obras simples, organização da cidade, melhorias visíveis. Nada de inauguração com banda e fogos — o tipo de evento que políticos adoram porque gasta dinheiro e rende voto. Girlei trabalha calado. E isso, convenhamos, é um escândalo.

 

PEDALADA RUMO À ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA? 

 

A verdade é que Girlei Lage inaugura uma nova categoria de gestor: o “prefeito pós-vaidade”, aquele que lembra que o cargo é uma função, não uma fantasia de poder. Enquanto outros bem próximos a nós se entopem de assessores, diárias e discursos vazios, ele segue tranquilo, pedalando, provando que administrar não exige luxos — só vergonha na cara e disposição.

 

Se continuar nesse ritmo, Cabrália não vai só crescer; vai exportar um novo tipo de político, desses que lembram que a honestidade ainda pode dar voto. E quem sabe, um dia, o “prefeito da bicicleta”, ao melhor estilo capixaba do hoje deputado Sergio Meneguelli, pedale até a Assembleia Legislativa? Seria a primeira pedalada na história da política brasileira que todo mundo aplaudiria.

 

Porque, no fundo, Girlei Lage é isso: um fenômeno raro — um prefeito que governa com o pé no chão e o espírito no guidão.