AAABURA

 

A idade tem uma vantagem extraordinária: ela ensina sem pedir licença. A desvantagem é que costuma cobrar a matrícula antes da aula.

 

Durante muito tempo achei que dava para mudar o mundo. Depois imaginei que bastava melhorar minha cidade. Em seguida concluí que seria suficiente convencer meia dúzia de pessoas. Hoje considero uma vitória conseguir mudar de ideia quando descubro que estou errado.

 

Foi uma longa evolução.

 

Também demorei para entender que política raramente é sobre princípios. É sobre interesses. Os discursos mudam, as bandeiras mudam, os partidos mudam, os inimigos viram aliados e os aliados, de repente, descobrem defeitos imperdoáveis uns nos outros. A única coisa que permanece firme costuma ser o interesse de quem faz o discurso.

 

IDEALISMO AINDA EXISTE? 

 

Idealismo existe? Claro que existe. Mas é artigo de luxo. O que se vende em grande escala é conveniência.Outra descoberta custou caro. Não discuta com quem vive de certezas. A internet fabricou uma multidão de especialistas instantâneos. Em cinco minutos o sujeito vira médico, jurista, economista, técnico da seleção e investigador da Polícia Federal. Só não resolve a própria vida.

 

Aprendi também que escrever a verdade — ou aquilo que você acredita ser verdade — tem um preço. Quem bate esquece. Quem apanha faz aniversário da surra. E processos judiciais têm uma curiosa capacidade de durar mais do que algumas amizades e certos casamentos.

 

Hoje prefiro investir meu tempo em quem vale a pena, trabalhar, cuidar da família, rir mais e discutir menos. Descobri que paz de espírito rende muito mais do que razão.

 

Se pudesse dar apenas um conselho aos mais jovens, seria este: não desperdicem anos tentando convencer quem não quer ouvir, salvar quem não quer ser salvo ou reformar um mundo que nunca pediu a opinião de vocês.

 

Gastem essa energia construindo a própria vida.

 

Porque, no fim das contas, a única pessoa que vocês realmente conseguem mudar é aquela que aparece no espelho todas as manhãs.

 

E, convenhamos, já dá um trabalho danado.