
Há uma ilusão persistente no mundo moderno — e ela não está nos livros de filosofia nem nas teses acadêmicas que ocupam prateleiras inteiras sem jamais ocuparem a vida de ninguém. Está na crença, repetida como um mantra preguiçoso, de que felicidade é um destino sofisticado, caro, cheio de pré-requisitos e, de preferência, acompanhado de aplausos. Como se fosse necessário um cargo, um título ou uma conta bancária com números suficientes para constranger o gerente.
A verdade, como quase sempre, é mais simples — e, por isso mesmo, mais difícil de aceitar.
Com o passar dos anos, e contra a vontade de quem ainda insiste em achar que sabe tudo, a gente começa a perceber que sabedoria não tem nada a ver com diplomas emoldurados ou discursos eloquentes. Ela costuma vir disfarçada, às vezes dentro de uma rotina dura, silenciosa, dessas que não rendem manchetes.
Meu pai era um desses casos inconvenientes para o imaginário moderno: nasceu sem nada, não herdou atalhos e teve de aprender cedo que o mundo não costuma facilitar a vida de quem acorda às quatro da manhã.
Uma vida inteira de trabalho e de estudos
Ainda menino, enquanto boa parte das crianças dormia — como é próprio da infância — ele já estava de pé, enfrentando o frio das madrugadas gaúchas para ajudar na ordenha de vacas, entregar pão e, entre uma tarefa e outra, encontrar um jeito de chegar à escola. Não havia glamour nisso. Não havia narrativa inspiradora pronta para redes sociais. Havia apenas o esforço, cru e contínuo, de quem entendeu cedo que a vida cobra antes de entregar.
De cinco irmãos, foi o único que apostou nos estudos. E aqui não há romantização: estudar, naquele tempo, significava horas debruçado sobre cadernos, resumos feitos à mão e uma disciplina que hoje talvez fosse considerada exagerada — ou inviável, diante das distrações disponíveis.
Tornou-se contador, depois advogado e, mais tarde, juiz de direito. Não por milagre, nem por acaso. Por insistência.
Mas o que realmente importa nessa história não são os títulos — esses, o mundo adora colecionar. O que importa é o que ele fez com eles. Ou, mais precisamente, o que decidiu não fazer.
Sem fé na justiça terrena
Em uma época em que subir mais um degrau na carreira costuma ser tratado como obrigação moral, ele recusou. Prestes a se tornar desembargador, preferiu parar. Disse, com uma franqueza que hoje soa quase subversiva, que não acreditava plenamente na justiça dos homens.
Não era rebeldia. Era pura lucidez. Uma dessas conclusões que não cabem bem em discursos oficiais, mas que fazem todo sentido quando a consciência ainda está em dia.
É curioso observar como o poder, em muitos casos, tem o efeito colateral de inflar o ego e esvaziar a dúvida. Meu pai seguiu exatamente na direção contrária. Na aposentadoria, em vez de celebrar conquistas, fazia perguntas incômodas a si mesmo: teria sido justo? Teria prejudicado alguém? Teria falhado onde não podia falhar?
Hoje, quando tantos se comportam como donos da verdade — e, pior, como donos do destino alheio — esse tipo de inquietação soa quase como uma relíquia moral. Talvez seja mesmo.
Mas nada disso, curiosamente, era o centro de sua filosofia de vida. O núcleo duro de sua sabedoria não estava nas decisões que tomou nos tribunais, mas nas que tomou fora deles.
Programa preferido
Ele costumava contar, sem qualquer cerimônia, que no início de sua vida com minha mãe — dois jovens, praticamente sem dinheiro e com um futuro que existia mais como esperança do que como garantia — o programa preferido era ir até a praça da cidade, sentar e chupar laranjas enquanto conversavam. Só isso.
Nenhum restaurante caro. Nenhuma viagem planejada. Nenhuma necessidade de impressionar ninguém. Apenas o suficiente — e, ao que tudo indica, mais do que suficiente.
É aí que a história começa a ficar desconfortável para quem insiste em medir felicidade por métricas financeiras. Porque, no fim das contas, ele conquistou tudo aquilo que o mundo costuma aplaudir — carreira, respeito, estabilidade — mas nunca confundiu essas coisas com o sentido da vida.
Em paz com Deus e consigo mesmo
Morreu com uma conta bancária modesta para os padrões de quem passou pelos cargos que ocupou. Nada que chamasse atenção. Nada que justificasse manchetes. E, ainda assim, deixou algo que hoje parece muito mais raro: a sensação de que viveu sem se vender.
Há quem prefira rir disso. Há quem ache ingenuidade. Afinal, vivemos tempos em que valores são negociáveis e princípios, quando existem, costumam vir acompanhados de um preço. Mas talvez valha a pena considerar a hipótese — apenas a hipótese — de que estamos confundindo prosperidade com acúmulo e sucesso com visibilidade.
No fim, a pergunta permanece, simples e desconcertante como uma tarde na praça: o que, exatamente, faz uma vida valer a pena?
Talvez a resposta não esteja nos gabinetes, nem nos títulos, nem nas cifras que circulam por aí com tanta desenvoltura. Talvez esteja em algo bem menos impressionante — e, justamente por isso, mais verdadeiro.
Talvez esteja em chupar laranjas. Ou não.