
Se eu não conhecesse bem o prefeito Jânio Natal há pelo menos mais de 20 anos e melhor do que ele conhece o próprio reflexo no espelho, até poderia acreditar nesse seu repentino surto de eficiência administrativa que ocorreu nesta semana. Um lampejo de produtividade que, curiosamente, só apareceu após o sinal fechado do STF, aquele mesmo tribunal que ultimamente tem sido mais eficiente do que a oposição em aposentar políticos incômodos.
Jânio, que até ontem parecia estar em um retiro espiritual administrativo desde outubro do ano passado – data das eleições – após pedir mais 100 milhões de reais emprestados à Caixa Econômica Federal, agora ressurge como o “mágico do extremo sul”, nosso próprio David Copperfield tupiniquim.
O homem que some com recursos, reaparece com promessas e, entre um truque e outro, ainda arruma tempo para indicar seu vice, Paulinho Toa Toa, como fiador do legado que talvez nem ele saiba onde está guardado.
A CONTINUIDADE DOS BONS E LUCRATIVOS CONTRATOS
A jogada é tão sutil quanto um elefante em loja de cristais: o prefeito, ao que tudo indica, já admite nos bastidores a própria cassação, mas não quer perder o controle remoto do país das maravilhas contratuais. E qual a melhor estratégia? Empurrar o vice para a linha de frente, com o discurso de que é preciso “dar continuidade” à gestão.
Uma continuidade que, sejamos honestos, só interessa mesmo aos que assinam empenhos, licitações e aditivos.
ATITUDE POSITIVA
Mas é justo reconhecer: nem tudo é teatro no circo de Jânio. Em meio ao caos de buracos, promessas recicladas e o costumeiro blá-blá-blá, o prefeito fez algo digno de nota – e de aplausos, ainda que contidos. Decidiu, enfim, assumir as obras de reforma e ampliação do anel viário, um compromisso que, desde o início, já deveria ser da Prefeitura.
Sim, senhores, enquanto os mais criativos jogavam a culpa no governador Jerônimo, e os menos corajosos tentavam empurrar o abacaxi para a ex-prefeita Cláudia Oliveira, Jânio fez o que todo gestor deveria fazer: reconheceu a obrigação da prefeitura e diz que vai botar a mão na massa. Ponto para ele. Afinal, enquanto discutem de quem é a culpa, o povo segue se arriscando sem ciclovia, sem acostamento e sem paciência.
QUE COMECE E AO MENOS TERMINE
A decisão, além de acertada, mostra que até um governo paralisado pode ter seu momento de lucidez. Claro, é bom lembrar que assumir uma obra não é a mesma coisa que concluir uma obra – especialmente quando se fala de Jânio, que promete como se a verba fosse infinita e o tempo, eterno. Mas, ainda assim, há que reconhecer: desta vez, ele agiu. Não falou que “quem sabe faz ao vivo”. Foi lá e fez. Ou pelo menos prometeu começar.
O que não dá é para engolir, goela abaixo, a conversa fiada de que Paulinho Toa Toa é a única alma iluminada capaz de manter o paraíso administrativo que Porto Seguro supostamente se tornou. Jânio quer sair, mas deixando o controle remoto com um substituto já treinado – aquele que não mexe no volume, nem troca de canal.
Portanto, parabéns, prefeito. Mas com uma plaquinha de aviso: o povo já viu esse filme antes. E, com sorte, não vai cair de novo no truque do ilusionista que tenta sair do palco deixando o show armado para continuar com os mesmos roteiristas.
Obra do anel viário? Palmas. Reeleição do seu espelho? Melhor deixar o povo decidir, sem maquiagem e sem mágicas de última hora.