
Enquanto o cidadão brasileiro é bombardeado diariamente por denúncias envolvendo corrupção, favorecimentos e negociatas nos mais altos escalões da República, a recente operação da Polícia Federal em Porto Seguro serve para lembrar que os vícios de Brasília não costumam ficar restritos à capital federal.
Não conheço os autos da investigação e seria irresponsável emitir qualquer juízo antecipado sobre a culpa ou inocência dos vereadores envolvidos. Isso compete à Justiça. Mas existe um aspecto que inevitavelmente chama a atenção da população sempre que um escândalo político vem à tona: o padrão de vida.
A pergunta é simples. Como pessoas que vivem exclusivamente da política conseguem ostentar carros de luxo, imóveis sofisticados, viagens frequentes e um estilo de vida que muitos empresários bem-sucedidos teriam dificuldade em manter?
A CONTA QUE NÃO FECHA
A conta simplesmente não fecha.
Aliás, essa talvez seja a principal característica da política brasileira moderna: as contas nunca fecham. Não fecham em Brasília. Não fecham nos estados. Não fecham nos municípios.
Enquanto isso, o trabalhador comum acorda cedo, paga impostos abusivos, enfrenta serviços públicos precários e luta para sobreviver. Quem vive de salário sabe exatamente o quanto custa cada prestação, cada conta de luz, cada compra no supermercado. Já no mundo político, frequentemente parece existir uma matemática paralela, desconhecida do restante da população.
Mas talvez o maior problema não sejam os maus políticos.
A OMISSÃO DOS BONS
O maior problema é a omissão dos bons.
É o eleitor que fecha os olhos para os erros dos seus políticos de estimação. É a torcida organizada que transforma agentes públicos em ídolos intocáveis. É a moral seletiva que condena a corrupção dos adversários e relativiza a dos aliados.
Foi assim que chegamos ao ponto em que a honestidade virou exceção e a desconfiança virou regra.
No fim das contas, políticos não surgem do nada. Eles são escolhidos, eleitos, reeleitos e muitas vezes defendidos justamente por aqueles que depois reclamam da situação do país.
A ÚNICA SAÍDA
Se existe uma saída para esse mar de lama que parece contaminar tudo ao nosso redor, ela não virá de Brasília, do STF, do Congresso Nacional ou das prefeituras. Ela começará quando o cidadão deixar de agir como torcedor e passar a agir como fiscal.
Porque democracia não se sustenta com aplausos. Sustenta-se com vigilância.
E toda vez que uma sociedade passa a admirar riqueza sem perguntar de onde ela veio, o caminho para a corrupção já está pavimentado.
O silêncio dos honestos continua sendo o melhor amigo dos desonestos.
E talvez seja exatamente por isso que o mar de lama continua avançando.