
Dono de uma inteligência e carisma diferenciados, e mestre na arte da persuasão e da oratória, o ex-prefeito Ubaldino Júnior anda dizendo por aí que é hora de “deixar o cavalo voar”. A frase é bonita, impactante, sonora, dessas que funcionam bem em palanque e rendem aplauso fácil. O problema é que, e ele sabe bem, na política de Porto Seguro, cavalo nenhum voa. Nunca voou. Cavalo no máximo entra. Devagar e bem devagari nho.
E é aí justamente que mora o perigo.
Porque cavalo que voa é coisa de conto de fadas. Cavalo de Tróia é história. Esse não precisa de asa. Ele apenas estaciona na porta da cidade, posa de presente, de reconciliação, de amadurecimento político — e quando se percebe, já tem gente demais escondida lá dentro.
Ubaldino já faz investimentos em sites de aluguel e tenta voltar à cena política depois de mais de 20 anos fora do jogo. Até o "Cocô Notícias", o site mais venal de Porto Seguro e região - junto com aquela página de memes sem graça do Arraial - e seu inimigo feroz, se rendeu aos seus caprichos. E volta como? Com discurso de paz, afagos públicos e uma súbita paixão pelo atual prefeito Jânio Natal, de quem já foi inimigo mortal, depois aliado, depois inimigo de novo — e agora, curiosamente, quase um amigo de infância.
Em Porto Seguro, não se iluda, caro leitor e eleitor, a política não anda em linha reta. Ela dá cavalo-de-pau.
ALFINETANDO CLÁUDIA
O discurso recente na Câmara foi revelador. Ubaldino elogiou Jânio, achou “injusta” a possibilidade da sua cassação e, de quebra, deu uma alfinetada na ex-prefeita Cláudia Oliveira, sua mais recente aliada em 2020. Não foi improviso. Foi cálculo. Ubaldino não dá ponto sem nó — e quando dá nó, costuma ser em corda grossa.
A conta é muito simples: Ubaldino precisa de Jânio. Jânio não precisa de Ubaldino. Para o prefeito, basta que o ex-prefeito não lhe bata no rádio, não crie ruído e não lhe atrapalhe. Já está ótimo e de bom tamanho. Para Ubaldino, é questão de sobrevivência política.
Sem grupo, sem mandato e longe do poder há décadas, ele sabe que ninguém ressuscita carreira política sozinho.
Ubaldino não é ingênuo. Nunca foi. Nem quando era inimigo feroz de Jânio Natal. Nem quando virou aliado. Nem quando voltou a ser adversário. Nem agora, quando reaparece como conciliador, compreensivo e quase solidário com o prefeito que ontem combatia com dentes e microfone. Em política, quem muda demais não evolui: se reposiciona.
CLÁUDIA É A ÚNICA ADVERSÁRIA A SER COMBATIDA
No discurso recente na Câmara, Ubaldino não falou por acaso. Cada elogio foi milimetricamente calculado. Cada silêncio, cada pausa, cada gesto, cada expressão e sorrisos foram escolhidos, estudados e pensados.
Cada crítica indireta à ex-prefeita Cláudia Oliveira foi lançada como quem joga isca, não pedra. Ele sabe que cavalo assustado e mal domado não entra na cidade. Tem que ao menos parecer manso.
O curioso é que, depois de décadas de guerra política, Ubaldino resolveu pregar a paz justamente agora. Descobriu de repente que a possível cassação do seu aliado de última hora, no caso o prefeito Jânio Natal, seria uma “injustiça”, que adversário merece compreensão e que o passado deve ser superado. Nada mais nobre. Nada mais conveniente.
E aí chegamos ao ponto central: a deputada Cláudia Oliveira, a ex-prefeita que mais trabalhou na história de Porto Seguro com recursos próprios. Sim, por que uma coisa é administrar com seriedade e com recursos próprios, outra, bem diferente, é não ter responsabliodade fiscal, contratar empréstimos milionários e endividar o município por décadas para posar de tocador de obras.
PESADELO
Nesse sentido, Cláudia é o único nome que realmente ainda assombra o atual prefeito — e, por tabela, qualquer projeto de retorno de Ubaldino. Jânio sabe muito bem quanto custou derrotá-la no último pleito, algo em torno de 30 milhões de reais contra 3 milhões, fora os milhares de cargos distribuidos a assessores fantasmas. Ele sabe que, mesmo sem dinheiro, o tamanho da popularidade da ex-prefeita é enorme.
E Ubaldino, é claro, também sabe. Tanto que costuma dizer, em tom de piada, mas com sinceridade brutal: “Antes de reunir o povo, o candidato precisa reunir muito dinheiro.” Em Porto Seguro, isso significa uma fortuna.
Há ainda outro detalhe que incomoda a ambos: se Cláudia voltar ao poder, pode ficar – e deve ficar - oito anos no cargo. Oito anos fora do jogo para quem montou uma máquina de fazer dinheiro – caso de Jânio – ou já passou vinte no banco de reservas - caso de Ubaldino - é praticamente uma aposentadoria forçada. E os dois sabem muito bem disso.
Por isso, o tal cavalo “alado” vai sendo montado peça por peça. Não para voar — porque cavalo não voa, ainda mais se for treinado e montado pelo ex-prefeito e pelo atual gestor. Mas para surpreender. Cavalo de Tróia não precisa correr, muito menos levantar voo. Ele só precisa que alguém abra o portão achando que é presente.
Cavalo que voa é lenda.
Cavalo de Tróia é história.
E a história, essa sim, costuma se repetir.
Façam suas apostas. O portão está logo ali.