
Confesso: este espaço não aceita — e jamais aceitará — a naturalização das centenas de lideranças políticas absolutamente inúteis, famílias fantasmas inteiras, penduradas na folha de pagamento, sugando algo em torno de 15 milhões de reais por mês sem bater um prego num sabão sequer. Tampouco compactua com a sequência de empréstimos milionários contraídos pela atual administração, ainda mais quando se recorda que o prefeito recebeu a prefeitura com cerca de 30 milhões de reais em caixa e praticamente sem dívidas, e hoje o município acumula um rombo que seguramente ultrapassa meio bilhão de reais, embora os números oficiais sejam distorcidos.
Nada disso muda o fato: sou obrigado a tirar o chapéu para o prefeito.
Sim, tirar o chapéu e reconhecer os grandes feitos políticos e a notável evolução pessoal do prefeito Jânio Natal. Certamente não enquanto gestor público no sentido clássico — isso seria pedir demais —, mas como político profissional que se tornou, alguém que compreendeu como poucos o funcionamento real do jogo, no qual ele se tornou um verdadeiro craque.
E aqui é preciso ser honesto: para o bem ou para o mal, o prefeito está mais do que certo. A população tem exatamente o governo que merece.
A POLÍTICA COMO BALCÃO DE NEGÓCIOS
Em uma cidade onde parte significativa do eleitorado encara a política como um simples balcão de negócios e instrumento para obtenção de vantagens pessoais, ilegais ou imorais, nada mais lógico e justo que a desonestidade reine soberana, ampla, escancarada e sem pudor.
Como dizem os sem noção: “isso não é prefeito, é um paizão”. Um pai que distribui benesses, afagos e promessas, que vira até evangélico se preciso for, enquanto a plateia responde com aplausos e o tradicional beija-mão digital.
O raciocínio é simples e lógico: “eu quero saber da minha boquinha; o resto que se dane”. E que as próximas administrações paguem a conta da farra. Afinal, dinheiro público nunca foi problema — problema sempre foi perder a vantagem.
Mas voltemos ao prefeito. É impossível não reconhecer: Jânio evoluiu. Evoluiu muito. De aprendiz, virou mestre na arte da enganação.
O QUE O PREFEITO APRENDEU MELHOR DO QUE NINGUÉM
Aprendeu, por exemplo, que processar e perseguir adversários é uma burrice que só o ego explica. Aprendeu a paparicar o Ministério Público exatamente do jeito que o MP gosta, tanto que, por pior e mais visível que sejam as irregularidade praticadas, absolutamente nada é feito contra a sua pessoa. Bingo!
Além desse tratamento, digamos assim, cortês e esmerado, ele prendeu a ouvir sua assessoria política, hoje uma das mais eficientes e inteligentes da Bahia. Aprendeu a defender seus aliados com unhas e dentes, estejam certos ou errados. Aprendeu a não demitir ninguém, a cumprir acordos políticos, a honrar pagamentos e promessas pessoais e, quando necessário, a desaparecer, é claro, estrategicamente — como fez do dia da eleição até, pelo menos, sessenta dias atrás.
Aprendeu ainda o principal: não precisa fazer praticamente nada nos três primeiros anos de uma admnistração, basta projetar algumas obras para serem inauguradas no período eleitoral. Mesmo que no dia seguinte às eleições as obras sejam paralisadas. É tiro e queda. Afinal, o povo gosta de ser enganado.
POPULARIDADE EM ALTA
Ele aprendeu mais. Aprendeu também a construir praças lindas, com chafarizes, espaços instagramáveis de lazer, além até mesmo a posar de bom marido, depois de manter a primeira-dama fora da vida pública por décadas, e a tratar seu vice — pessoal e financeiramente — como manda o figurino. Não por nada, para Paulinho, Jânio é o seu maior líder e exemplo a ser seguido. Ubaldino e Aziz que o digam se vale a pena negar ao vice a tão sonhada fatia do bolo que ele exige.
E, mesmo assim, absolutamente nada parece arranhar sua popularidade. Sinal que sua estratégia está correta.
Nem a volta da Zona Azul, que ele jurou retirar.
Nem a Taxa de Preservação Ambiental, numa cidade que não consegue preservar sequer a Ponta Grande.
Nem a nova taxa sobre aluguel por temporada, seja via Airbnb ou pelas redes sociais — taxa que, não resta dúvida, será aprovada pelos vereadores mais venais da nossa história, que certamente dirão com ar solene que a cobrança é “justa”, “necessária” e “inevitável”.
Quer prova? Basta acompanhar os comentários em suas redes sociais. Centenas praticam diariamente o beija-mão digital, na esperança de agradar o prefeito ou, quem sabe, de também serem agraciados com alguma vantagem. Porque, no fim das contas, é isso que boa parte do povo quer: vantagem, por menor que seja.
ADVERSÁRIOS COMO VERDADEIROS CABOS ELEITORAIS
Como se não bastasse, Jânio ainda conta com um auxílio precioso: a total incompetência de seus adversários. Gente que ainda acredita na velha política do dinheiro vivo e dentro da mala, do acordo não cumprido, das mentiras e manipulações sobre pesquisas eleitorais e do abandono dos próprios apoiadores antes mesmo do dia da votação.
O resultado? Uma lavada histórica de mais de 20 mil votos, uma surra homérica que tudo indica se repetirá com a eleição do filho, Jânio Júnior, cuja ida à Assembleia Legislativa parece mais questão de tempo do que de disputa. Fala-se, sem exagero, em vitórias por dois ou três votos contra um.
Até Ubaldino, seu adversário ferrenho até poucos dias atrás, pasme-se, resolveu beijar a sua mão, na esperança de que o gestor o apoie ou ao menos que não se posicione contra sua candidatura. De bobo e de ingênuo o ex-prefeito não tem mesmo nada.
Diante de tudo isso, convenhamos: não há como tirar a razão do prefeito Jânio Taxando Natal.
Ele apenas compreendeu — melhor do que ninguém — que, em Porto Seguro, o povo não quer gestão, quer benefício; não quer responsabilidade, quer vantagem; não quer futuro, quer presente.
E, sendo assim, nada mais justo:
o povo realmente tem os representantes que merece.