AAAPRACA

Há políticos que não mudam. Há políticos que mudam de discurso. E há, mais raros, os que mudam quando percebem que não mudar custa caro. Jânio Natal parece ter passado por todas essas fases — o que, convenhamos, já é alguma coisa bastante positiva num ambiente em que a mediocridade costuma ser tratada como virtude administrativa.

 

Conheço Jânio há tempo suficiente para não comprar versões romantizadas de sua biografia pública. Trinta anos não cabem em release institucional. Vi o político em formação, o estrategista de churrascos em Belmonte, o gestor ausente, o prefeito errático, o homem sem gabinete e com muitos álibis. Seu primeiro governo em Porto Seguro foi, para dizer o mínimo, um exercício prolongado de irrelevância administrativa. Quem quiser dourar esse passado terá de brigar com os fatos — e os fatos não costumam perder.

 

PRIMEIRO GOVERNO FOI UMA DECEPÇÃO TOTAL 

 

Entre 2004 e 2008, Porto Seguro teve um prefeito que parecia estar sempre em outro lugar. Quando aparecia, raramente, era para explicar por que não dava para fazer. Obras mínimas ou largadas pela metade, prazos máximos, responsabilidades terceirizadas. A cidade andava para trás enquanto a única construção realmente consistente crescia no Alto do Mundaí, sob o olhar distraído — ou convenientemente cego — das instituições que deveriam ver.

 

Esse é o passado. Ele existe, não será apagado e não merece indulgência retroativa.

 

Mas política, goste-se ou não, é o tempo presente. E no presente, Jânio Natal surpreende — o que é sempre melhor do que decepcionar, embora não seja garantia de virtude permanente. Depois de um longo período de inércia inexplicável, agravado pelo estranho hábito de paralisar a máquina pública logo após vencer eleições, o prefeito resolveu voltar a trabalhar. E quando resolveu, mostrou que sabe.

APOSTA CERTA

 

A retomada das obras não é detalhe. Ponte, anel viário, Praça ACM, requalificação da Pero Vaz de Caminha: isso não é maquiagem, é infraestrutura. Não é favor, é obrigação — mas obrigação cumprida também se reconhece. Porto Seguro precisa de obras assim porque arrecada como cidade grande e, por muito tempo, entregou como vila desatenta.

 

Não há aqui aplauso emocionado, nem conversão tardia. Há constatação. O atual gestor, neste momento, acerta. Entrega obras relevantes, melhora espaços públicos, investe em lazer e paisagismo urbano, algo que seus antecessores infelizmente  trataram como supérfluo.

 

E não é. Cidade também é espaço, convivência, dignidade visual — conceitos simples, mas revolucionários para quem sempre se contentou com o mínimo.

 

JUNINHO VEM AÍ

 

Claro que há cálculo político. Sempre há. Juninho no horizonte, 2026 no retrovisor, alianças nacionais e estaduais na fotografia. Nada disso escandaliza. Política é isso mesmo. O que não pode — e nunca poderá — é transformar projetos eleitorais em desculpa para novos períodos de abandono administrativo, como aconteceu de outubro de 2024 a outubro de 2025. A cidade não pode voltar a ser desligada após o fechamento das urnas.

 

Jânio parece ter entendido algo que antes ignorava: governar é rotina, não evento. Não se governa por espasmos de eficiência. Não se administra esperando o próximo palanque. Se essa lição foi aprendida de fato, ótimo. Porto Seguro agradece. Se for apenas mais um intervalo produtivo entre longos silêncios, a conta virá — como sempre vem.

 

SEMPRE ATENTOS

 

Este espaço, que nunca foi dócil com governantes, mesmo que com alguns de forma interna – tudo depende do respeito recebido -  também não será agora.

 

Reconhecer acertos não implica suspender a vigilância. Pelo contrário: aumenta a responsabilidade de quem governa. Quem mostrou que sabe fazer, não pode mais alegar que não conseguiu.

 

Jânio Natal evoluiu? Sim, ao que tudo indica. Evolução, porém, não é ponto de chegada. É processo. E processo exige continuidade, constância e respeito ao interesse público — mesmo quando não há eleição à vista.

 

Os aplausos de hoje não anulam as cobranças de amanhã. E isso, no fundo, é o melhor elogio que um gestor pode receber.