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Onde um prefeito devolve terras já ganhas na Justiça, distribui favores milionários e ensina que, no Brasil, generosidade nunca sai do próprio bolso.

 

Se o Guinness Book fosse sério, já deveria criar uma categoria exclusiva para Porto Seguro: “A Prefeitura mais bondosa do Brasil”. O troféu, é claro, ficaria nas mãos do prefeito Jânio Natal — campeão em generosidade com recursos que, curiosamente, nunca pertencem a ele, mas sempre à coletividade.

 

Vejamos dois exemplos recentes dessa verdadeira academia de bondades.

 

Primeiro, a epopeia dos 77 hectares. A área, desapropriada legalmente pela prefeitura, localizada na beira do anel viário, foi disputada pelo empresário Lúcio Pinto, conhecido tanto pelo uísque quanto pelas suas façanhas financeiras. Perdeu aqui, perdeu no Tribunal da Bahia, perdeu no STJ — e perdeu até o prazo de recorrer. Jogo encerrado. Terra da prefeitura. Fim de papo.

 

Mas não em Porto Seguro. Aqui, o impossível sempre encontra um jeitinho. O prefeito, antes mesmo de esquentar a cadeira, fez um acordo “mágico”: o empresário doaria 5 hectares e, em troca, recebia 72 hecatres  de volta. Resultado: o que era derrota definitiva virou vitória milionária. Estimativas apontam que a brincadeira envolveu cerca de R$ 200 milhões. Como parte ficou com o empresário sortudo e a outra parte, segundo rumores, mudou de mãos sem que se saiba exatamente quais, a operação segue envolta em névoas que fariam inveja a qualquer thriller político. Será que Lúcio recebeu mesmo os 72 hectares ou será que recebeu apenas a metade? O povo, dizem, aumenta, mas não inven

 

SEMELHANÇAS COM AZIZ 

 

O segundo ato da ópera  das bondades é ainda mais curioso: Aziz Ramos, ex-vice-prefeito do longínquo governo Ubaldino, outro mágico das finanças públicas, teria conseguido do atual prefeito um acordo para receber cerca de \$ 1 milhão por um cargo que, na prática, mal exerceu. A conta pode até ter respaldo jurídico, mas o cheiro de imoralidade é inconfundível.

 

Mais saboroso ainda é o detalhe: segundo denúncia apresentada pelo próprio Aziz  ao Ministério Público, o bolo seria repartido em fatias entre Aziz e outras figuras do entorno administrativo. O vice, indignado por ter de dividir sua “fatia”, acreditando que iria receber menos do que merecia, acabou recorrendo ao MP. Não deixa de ser curioso: em Porto Seguro, até quem reclama de bondade alheia o faz porque a bondade não foi completa.

 

A JUSTIÇA DE BRAÇOS CRUZADOS 

 

E o Judiciário? E o Ministério Público? Aparentemente, assistem de camarote, aliás, como sempre. Quando surgem denúncias de escândalos  contra o atual gestor — como no caso dos restaurantes populares,  da CPI do transporte urbano e da própria "devolução" da área de Lúcio — a justificativa chega a ser didática: “não houve prejuízo aos cofres públicos” porque a prefeitura prometeu resolver. Prometeu! Como se promessa, em matéria de dinheiro público, fosse sinônimo de reparação.

 

LABORATÓRIO DO IMPOSSÍVEL 

 

Porto Seguro, portanto, se firma como um laboratório do impossível. Em outras cidades, condenações encerram carreiras, derrotas judiciais enterram litígios e dívidas pessoais ficam onde deveriam: na esfera privada. Aqui, tudo pode ser reinventado. Existem acordos para todos os gostos, desde que as partes dividam o bolo. Perdeu na Justiça? Ganha na prefeitura. Não exerceu o cargo? Recebe assim mesmo. Rompeu com o aliado? Volta a ser amigo de infância. 

 

MÁGICA DA GESTÃO BONDOSA 

 

É a tal  mágica da “gestão bondosa”. Uma bondade que nunca vem do bolso de quem assina, mas sempre da conta coletiva de quem paga.

 

Sorria, leitor. Você está na Bahia. E, como se dizia nos filmes italianos, “E la nave vá”.