
Antes que venham me chamar de petista, já aviso de antemão: poupem a saliva. Não sou, nunca fui e Deus me livre de ser. Tenho até uma irmã que acha que sou, mas prefiro ser acusado de roubar galinha do que carregar esse carimbo. Petista, no Brasil de hoje, virou sinônimo de gente que acha que justiça é um prato que só pode ser servido frio contra os outros.
Agora, dito isso, também não estou aqui para defender Jair Messias Bolsonaro, o tosco-mor da República. Achei justa sua condenação — não pelo que ele fez, mas pelo que ele falou. O homem não precisava de inimigos, tinha a própria boca como pior adversário. Fez questão de colecionar desafetos como quem coleciona figurinhas da Copa.
A tal “trama golpista”? Uma reunião de militares em farda cheirando a naftalina, especulando planos que nunca saíram da mesa. Conversa de quartel. Fantasia de poder. Nada que qualquer um, com a vaidade inflada por metade do país gritando “mito”, não tivesse cogitado. Mas daí a se falar em golpe consumado vai uma distância maior que da Papuda até Miami.
O PROBLEMA SEMPRE FOI ELE MESMO
O problema de Bolsonaro nunca foi golpe. Foi ele mesmo. O show diário no cercadinho do Alvorada era uma usina de vergonha alheia: zombava de índio, negro, gay, jornalista, ministro do STF, doente de Covid — quem respirasse fora do compasso dele, levava bordoada. E como se não bastasse, ainda achou que valia a pena soltar os filhos para brincar de estadistaS. Vereador de quinta querendo dar pitaco em defesa nacional. Filho youtuber se achando chanceler. E o povo que aguentasse a bagunça de família.
Nesse ponto, Lula ao menos tem mérito: os filhos enriqueceram, mas nunca tiveram a cara de pau de querer se passar por ministros ou generais. Ficaram na deles. Já Bolsonaro fez de Brasília um puxadinho e a extensão da sua sala de estar.
VÍTIMA DE SI MESMO
E aí está: colhendo o que plantou. Não foi condenado por golpe, mas por arrogância. Não caiu por crime, caiu por falatório. No fundo, virou vítima de si mesmo.
Mas, claro, o PT não ia perder a chance de transformar isso em revanche histórica. Lula foi preso porque havia delação, planilha, mala de dinheiro. Bolsonaro foi condenado porque falou mais do que devia. Não são casos iguais — mas, para os petistas, vale como vingança. A narrativa é simples: Lula, injustiçado; Bolsonaro, finalmente pagando. E quem ousa discordar vira inimigo da pátria.
O STF E SUA MORALIDADE DE BOUTIQUE
Enquanto isso, o STF desfila sua moralidade de boutique. Relógio Rolex de meio milhão no pulso, gravata de 50 mil no pescoço e patrimônio que faria inveja a banqueiro suíço. E ainda querem que o povo acredite que ali só se decide na base da toga e do Código Penal.
Todos sabem que não: bastidores, telefonemas, arranjos — tudo faz parte do cardápio. Vide a novela do prefeito Jânio Natal, que continua firme no cargo, protegido por decisões que custam mais caro do que Rolex em vitrine.
E eu, aqui aos 65 anos, assisto a tudo de camarote. Não sou Lula. Não sou Bolsonaro. Estou pouco me lixando para os dois ou para qualquer outro político. Um já foi o presidiário mais famoso do país, o outro agora é o condenado mais tosco da nossa história recente. O Brasil segue sendo governado por abutres de paletó e toga.
ÚLTIMA E ÚNICA ESPERANÇA
Minha única esperança é Tarcísio de Freitas. Parece sério, ponderado, inteligente. Não tem Rolex, não tem cercadinho, não tem filho metido a ministro. Fora ele, só vejo escombros. E aí, caro leitor, é rezar para que o pouco juízo que resta nesse país não seja levado também pelo próximo paredão de som da política nacional.