
Os leitores deste espaço já sabem: minha opinião sobre o governo de Porto Seguro não depende de simpatia, amizade, publicidade ou conveniência. Se hay governo, sou contra — especialmente quando o governo é ruim de serviço. E, convenhamos, nos últimos tempos serviço é o que menos se viu por aqui. Estou mentindo?
Certo é que o nome Contraponto não nasceu por acaso. É a tentativa de fazer o que muita gente desistiu: pensar diferente. Dizer o que precisa ser dito, mesmo que desagrade. E, se for pra errar, que seja por excesso de sinceridade — e não por covardia ou conchavo.
EXATAMENTE UM ANO PARADA
Pois bem. Depois de um ano da mais completa letargia administrativa, com obras paradas, ruas esburacadas e o prefeito mais presente em Salvador do que na cidade que o elegeu, eis que, de repente, não mais do que de repente, o prefeito Jânio Natal parece ter acordado. As tintas voltaram às ruas, o mato começou a sumir, a ciclovia ganhou cor nova e a velha promessa da ponte ressurgiu do mapa. Milagre? Conversão? Ou apenas cálculo político?
Difícil saber. Jânio é daqueles políticos que falam tanto, e de tantos jeitos diferentes, que o cidadão comum já não sabe quando ele está sendo sério, irônico ou simplesmente performático. Essa confusão, claro, é útil — especialmente quando se quer vender entusiasmo como resultado e marketing como gestão.
A ELEIÇÃO DE JÂNIO JÚNIOR
A motivação súbita do prefeito, dizem alguns, é puro reflexo da eleição do filho, que deve se eleger deputado estadual com expressiva votação e relativa facilidade. Pode ser. Afinal, em política, nada desperta mais o espírito empreendedor de um gestor adormecido do que a perspectiva de um legado familiar, e Jânio Júnior, sem dúvida, é uma boa pessoa e uma boa opção para Porto Seguro .
O problema é que o “novo ritmo” da administração vem acompanhado de uma velha mania: contrair empréstimos que quem vai pagar são os próximos prefeitos.
Menos de sessenta dias atrás, a Prefeitura firmou mais um contrato milionário com a Caixa Econômica Federal, elevando o endividamento municipal para patamares históricos — coisa de mais de R$ 600 milhões. É dinheiro que, como se diz, “não acaba nunca” — mas que também nunca será pago por quem o gasta. A conta, como sempre, fica para os sucessores.
Mas, claro, segundo o prefeito, “dinheiro não é o problema”. E não é mesmo — pelo menos, não para quem administra como se o orçamento fosse um poço sem fundo.
Enquanto isso, a saúde de Porto Seguro amargou por 4 anos a posição de último lugar entre os 417 municípios da Bahia, segundo dados do Ministério da Saúde. Sim, último em meio a 417 cidades. É quase um feito.
FAZENDO SOMENTE A SUA OBRIGAÇÃO
Mesmo assim, há quem comemore o repentino renascimento da cidade, como se o básico — podar o mato, pintar meio-fio, consertar rua — fosse motivo de aplauso. Ora, isso é o mínimo para uma cidade que arrecada 100 milhões de reais por mês. Governar é muito mais do que pintar calçada e fazer live no Instagram. Governar é cuidar da cidade, ainda mais uma cidade turística, com constância, e não com picos de entusiasmo entre uma eleição e outra.
E por falar em constância, vale lembrar que Jânio recusou-se, em 2021, a integrar o consórcio da Policlínica estadual em Eunápolis, que por certo poderia ter aliviado o caos da saúde local e a sobrecarga sobre o Hospital Luis Eduardo Magalhães. Agora, ironia das ironias, ele vem dizer que vereadores de Eunápolis pediram socorro a ele. Supimpa! Inacreditável! Difícil é saber se mais uma vez foi humor involuntário ou apenas desespero regional.
No fim das contas, a pergunta que fica é a do título: até quando vai durar essa motivação? A julgar pelo histórico, não muito. Mas, como tudo em Porto Seguro, a fé ainda é um dos poucos recursos que não foram endividados.
Resta esperar que, desta vez, o prefeito consiga manter acesa a chama da eficiência por mais de um verão. Porque o porto é seguro, sim — mas a paciência do povo, essa, já está em mar revolto há muito tempo.
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Contraponto — porque alguém precisa dizer o óbvio.